Em uma das cenas de "Baixio das Bestas", filme de 2006 dirigido por Claudio Assis, a personagem de Dira Paes dança seminua para três homens em uma casa de espetáculo improvisada. O que começa de forma consensual termina em estupro.
Num deslocamento de câmera, sombras na parede testemunham o momento em que os espectadores se transformam em bestas-feras e invadem o palco com um pedaço de pau. As carícias se convertem em agressão, até que a mulher cai desmaiada. É uma das cenas mais chocantes da história recente do cinema.
Deixo para a psicanálise a tentativa de explicar em que momento a pessoa desejada se converte em objeto a ser destroçado.
Compreender os mecanismos dessa violência exige combater as estruturas do silêncio, como se nas sombras tudo fosse possível e nada condenável. Nem a desumanização da vítima antes mesmo da agressão.
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O caso Robinho e suas repercussões jogam luz à cultura do estupro e à misoginia. No processo em que foi condenado em primeira instância pela Justiça Italiana pela violência contra uma jovem albanesa em uma boate em Milão são fartos os registros de que nem antes nem durante nem depois do ato ele reconhece qualquer humanidade naquela mulher.
Em um dos diálogos interceptados na investigação, e revelados pelo repórter Lucas Ferraz no Globo Esporte, o jogador diz a um amigo que estava rindo porque não estava "nem aí". "A mulher estava completamente bêbada, não sabe nem o que aconteceu".
Em outro trecho, o amigo diz ter visto quando ele colocou o pênis na boca da mulher. Para Robinho, isso não significa transar -- o que dava a ele tranquilidade por imaginar que só os amigos a quem viu atacarem a mulher "completamente bêbada" que "não sabe nem o que aconteceu" se dariam mal.
Após a revelação do diálogo e o encerramento do contrato com o Santos, clube para o qual retornaria como ídolo mesmo após a condenação, o atleta concedeu uma entrevista ao portal UOL para dizer que as frases foram tiradas do contexto e que o processo corre em segredo de Justiça.
Na entrevista, ele disse que seu crime foi ter traído a esposa com quem é casado desde 2009. Disse também que "infelizmente existe esse movimento feminista, que não sei o que... Muitas mulheres que não são nem mulheres, para falar o português claro".
Em português bem claro, Robinho diz que existem mulheres para casar e merecem um pedido de perdão e outras que nem mulheres são -- a essas o sorriso de deboche de quem "não está nem aí" mostra que todo castigo é pouco por não aceitarem a submissão.
O goleiro Bruno bateria palmas.
Diante das evidências, Robinho fez como faz Jair Bolsonaro, sua referência política conhecido por dizer que há mulheres que merecem e não merecem ser estupradas, quando confrontado. Se aninhou na Bíblia e apontou o dedo a Eva, à maçã, à serpente e aos demônios. "Os caras aí são pessoas usadas pelo demônio, né? A gente sabe como a TV Globo é uma emissora do demônio. É só você ver as novelas, as programações", disse, num áudio vazado por algum serafim.
"No deserto, é nesses ataques que você se aproxima de Deus e se prepara. A gente tem N exemplos aí. Você viu o que fizeram com o Bolsonaro antes da eleição? O ataque que fizeram ao cara? Falando que o Bolsonaro era isso e aquilo? Que o Bolsonaro era racista, fascista, que era assassino? E quanto mais eles batiam no Bolsonaro, mais ele crescia. Então estou em paz mesmo, de coração. Não estou preocupado com eles", filosofou.
A identificação de um condenado por estupro com a cartilha bolsonarista, na qual até o assassino Guilherme de Pádua encontrou a paz, é a história recente de um país. Tem um pouco de tudo ali no raciocínio, como se a suposta linha direta com Deus onipotente que separa os homens entre bons e maus isentasse seus seguidores de qualquer responsabilidade humana. Isso explica o desprezo pelo elemento humano e seus direitos, um terreno rebaixado por quem se acredita divino.
Os autodeclarados cidadãos de bem são os mesmos que esperneiam quando ouvem falar que não tem hora para ensinar meninos e meninas sobre direitos, deveres, responsabilidades afetivas e, claro, educação sexual. Quando não se fala sobre isso, cada um age e se absolve com a própria convicção do que pode e do que não pode.
Robinho poderia explicar qual foi a passagem bíblica que o autorizou a, em vez de compaixão, manifestar deboche por não estar nem aí diante de uma pessoa inconsciente de si. Poderia dizer também de que lado estaria na passagem bíblica em que Jesus desarma a agressão contra uma mulher pedindo para que atirasse a primeira pedra aquele que nunca havia pecado. Não vale botar asterisco para dizer "mas peraí, ela estava bêbada", "não era mulher casada", "era só uma feminista" e "essa mulher nem mulher era".
Enquanto essas contradições seguirem guardadas no tapete do cinismo em nome de Deus, o mundo real seguirá um paraíso para uns e o inferno para outras tantas. Em 2019, só o Brasil registrou um estupro a cada 8 minutos, segundo o anuário recém divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
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