segunda-feira, 19 de outubro de 2020

O que pensam os imigrantes ilegais brasileiros que apoiam Trump

 

Mariana Sanches - @mariana_sanches - Da BBC News Brasil em Washington

Ao pisar no avião que o traria deportado dos Estados Unidos para o Brasil, há 10 meses, o agricultor Waldir Pereira da Silva, de 44 anos, conta que se sentiu aliviado. Pode soar estranho que alívio tenha sido a sensação de alguém que, no momento da decolagem do avião fretado pelo governo americano, viu enterrado seu sonho de reconstruir a vida nos EUA — pelo qual tinha pago R$ 126 mil a um traficante de pessoas, que prometera atravessar não apenas Silva, mas sua mulher Sedneia, de 36, e a filha do casal, Ana, de 14, pela fronteira com o México.

"Só que os americanos nos pegaram e eram tão brutos com a gente. Diziam que eles eram bons, e a gente era bandido, terrorista, querendo fazer mal no país deles. Era tanto sofrimento, que eu fiquei aliviado quando acabou", relatou Silva à BBC News Brasil, enquanto trabalhava em uma lavoura de café, em Alvorada, Rondônia.

Depois de atravessar o rio Grande entre Ciudad Juarez, no México, e a cidade texana de El Paso, em fevereiro de 2020, não demorou muito para que Silva e a família fossem encontrados pelo serviço de imigração americano. A partir daí, eles passaram 16 dias em um centro de detenção, com muito medo e pouca comida, até engrossarem as fileiras de centenas de brasileiros já deportados sumariamente pelos Estados Unidos, em uma política de expulsão expressa de cidadãos do Brasil iniciada pela gestão de Donald Trump no fim do ano passado.

Silva e sua família sentiram na pele o que é a propalada política de tolerância zero do presidente Donald Trump com migrantes irregulares. Ainda assim, ele não nutre qualquer rejeição pelo comandante por trás do aparato estatal que o impediu de chegar à Carolina do Norte, onde sua rede de contatos lhe prometera que Silva ganharia R$ 80 por hora em serviços gerais, e não por dia, como em Rondônia.

"Eu apoio o Trump. Sempre gostei dele porque ele é uma pessoa rígida, que quer as coisas certas e bem feitas. Cada país tem a sua política e eu não tenho nada que discordar. Se o Trump mandou a gente embora, então a gente vai embora. Acho que o Brasil tinha que ser assim também, o Brasil é muito liberal, qualquer um entra, faz o que quer. O Trump é maneiro, segue princípios bíblicos, é sério, melhorou a economia e fala tudo o que ele pensa na cara mesmo", diz Silva, fiel da igreja evangélica Assembleia de Deus. Ele também é fã de Bolsonaro e da relação do atual presidente brasileiro com o americano. "Meu sogro sempre dizia: a gente tem que se escorar em árvore grande, que dá sombra", explica.

Sem documentos, a favor de Trump

Silva resume de modo simples os motivos pelos quais uma parcela significativa de migrantes brasileiros sem documentos apoia Trump, mesmo que as políticas do americano os mantenham sob risco constante de deportação: uma economia que apresentava pleno emprego até a pandemia de covid-19 atingir o país, a defesa de uma agenda cristã e conservadora nos costumes e uma imagem de político destemido e durão.

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Donald Trump está na reta final da sua campanha por reeleição

A comunidade brasileira nos EUA é composta por cerca de 1,2 milhão de pessoas, das quais entre 250 mil e 400 mil estão em situação ilegal, segundo estimativa de 2016 do Migration Policy Institute. Embora não haja pesquisas sobre preferência eleitoral dos brasileiros no país para o pleito presidencial atual, existe uma impressão generalizada de que a maior parte da comunidade apoia o democrata Joe Biden, mas que o percentual dos que preferem Trump tenham ou não documentos — não é nada desprezível.

Prova disso é o outdoor que adorna atualmente a cidade de Governador Valadares (MG), origem de grande contingente de migrantes brasileiros no país. Ao lado de uma foto de Trump, há os dizeres: "A favor de Deus, a favor da família, a favor da vida, a favor de Israel e a favor do Brasil".

Migrantes indocumentados não votam nas eleições americanas, mas suas convicções políticas têm capacidade de influenciar a comunidade como um todo e o voto de brasileiros com cidadania americana.

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